sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Conceito de Recalque

                 Por Fernando Freitas
                      Email:fernando_freitas@hotmail.com


 O mecanismo do recalque é uma construção teórica de fundamental importância tanto na compreensão da teoria freudiana quando em sua aplicação na clínica. Freud bem antes de 1915 ao estudar as histéricas utilizando hipnose já se deparava com fenômenos clínicos de resistência. Representações que suas pacientes resistiam em torná-las conscientes, representações recalcadas. Suas primeiras referência a este conceito foi publicada em seu texto Comunicação preliminar de Breuer e Freud.

Entendo que o mecanismo do recalque fornece ao analista uma arcabouço teórico que permite a compreensão de determinados fenômenos clínicos além de acreditar que o recalque é um dos conceitos mais importantes da obra freudiana conforme declara Freud em A história do movimento psicanalítico que o recalque é o pilar fundamental sobre o qual descansa o edifício da psicanálise.

Para isto iremos percorrer o seguinte caminho: Inicialmente será contextualizado a questão do recalque na obra freudiana. Em seguida explicar o conceito de recalque primário ou originário, recalque secundário ou propriamente dito e retorno do recalcado.

2 – RECALQUE


O recalque é uma idéia antiga que já estava presente na teoria de Freud desde o estudo do caso da Ana O.. Com o abandono da hipnose e com a criação do método de associação livre Freud observa, no tratamento das pacientes histéricas, o aparecimento  determinados fenômenos clínicos, esbarrando em resistências que impediam que as idéias patogênicas de seus pacientes se tornassem conscientes, ou sejam, impediam a rememoração da paciente.
Estas idéias causavam algum sofrimento psíquico. A resistência foi interpretada por Freud como uma defesa cuja a finalidade era manter fora da consciência uma idéia que causava algum tipo de sofrimento psíquico levando-o a criar o conceito de recalque.
Em 1915, no texto As pulsões e suas vicissitudes, Freud afirma que as pulsões podem sofrer as seguintes vicissitudes: a reversão a seu oposto, retorno em direção ao próprio eu (self) do indivíduo, recalque e sublimação. No texto o Recalque (1915), Freud, ratifica que o recalque é uma vicissitude da pulsão e aprofundando-se nesta questão.
Freud inicia o texto do Recalque (1915), afirmando que uma das vicissitudes da pulsão é encontrar resistências que a tornem inoperantes. Uma das condições necessárias para que o recalque ocorra é que o efeito da pulsão produza desprazer em vez de prazer. A satisfação de uma pulsão recalcada pode, produzir prazer em um lugar e desprazer em outro. Assim sendo a condição para que o recalque aconteça é que a potencia do desprazer seja maior do que o prazer que seria obtido pela satisfação.
Importante ressaltar que o recalque esta a serviço da satisfação pulsional e não contra ela e que ele não é um mecanismo defensivo e só poderá ocorrer a partir do momento em que tenha ocorrido uma clivagem do aparelho psíquico separando-o em inconsciente e pré-consciente/consciente. Em outras palavras para que haja recalque é necessário que haja uma distinção entre inconsciente e consciente. A essência do recalque consiste em retirar algo da consciência e mantê-lo afastado dela.
Freud didaticamente separa o recalque em recalque primário ou originário, recalque secundário ou propriamente dito e retorno do recalcado. Importante chamar a atenção que esta divisão não são fases, uma vez que o processo é dinâmico. Abaixo vamos esclarecer cada um destes pontos.


2.1. RECALQUE PRIMÁRIO OU ORIGINÁRIO


            Em seu texto o recalque, Freud não se aprofunda na explicação do que seria o recalque primário. Ele diz apenas que consiste em negar a entrada no consciente do representante psíquico da pulsão e com isto ocorre uma fixação onde a partir deste momento o representante psíquico da pulsão fica ligado a ele.
            Garcia-Roza (2000), discorre melhor sobre este tema lançando luz sobre o que Freud não explicou no texto sobre o recalque. O autor comenta que o recalque primário ou originário é precursor e condição necessária para que o recalque ocorra. Consistindo em negar ao representante pulsional o acesso a consciência, estabelecendo uma fixação, uma ligação da pulsão com seu representante. Ao utilizar o termo inscrição, Freud, procura designar que a fixação da pulsão a seu representante seria um registro psíquico inteiramente inacessível à consciência, logo o recalque primário ou original é anterior a constituição do inconsciente como um sistema psíquico conforme define Freud.
Para Garcia-Roza (2000), o recalque primário ou original “estabelece uma demarcação interna ao psíquico que vai servir de referência para o recalque propriamente dito” (pág. 178).
            Lacan emprega o termo Pragung (cunhagem) para designar a inscrição de uma cena em um inconsciente não recalcado. Esta inscrição se dá em um registro imaginário, uma vez que, não esta integrada a um sistema de linguagem pois é anterior a aquisição da fala, ou seja, não esta simbolizada.
            Garcia-Roza (2000), comenta que para uma melhor compreensão do que seria o recalque primário seria a análise do caso clínico estudado por Freud do Homem dos Lobos (História de uma neurose infantil), onde um menino sofre de uma histeria de angústia na forma de uma fobia animal. Onde uma criança de aproximadamente 02 anos presenciou uma relação sexual dos pais. Esta cena primária neste momento não teria sido traumática. Neste momento o que ocorreu foi uma inscrição inconsciente – a Pragung de Lacan. O efeito traumático ocorreu só depois que a criança teve a possibilidade de significar esta cena primária (a relação sexual dos pais).
            Garcia-Roza (2000), afirma que segundo Freud a compreensão da cena primária é possível graças ao desenvolvimento psicossexual da criança, só que há a necessidade da compreensão desta cena primária e esta compreensão só acontecerá através do ingresso no simbólico, ou seja, com a aquisição da fala.

2.2. RECALQUE SECUNDÁRIO OU PROPRIAMENTE DITO.

            Segundo Freud (1915), o recalque propriamente dito afeta aos derivados mentais do representante recalcado ou a pensamentos que tenham ligação associativa a estes representantes.
 Além disto, Freud alerta que é errado enfatizar apenas o que sofre o processo do recalque. Igualmente importante é a atração exercida pelo que foi recalcado sobre o que possa ser estabelecido algum tipo de ligação ou associação.
            O recalque não anula o representante da pulsão. Não é correto supor que o recalque retira da consciência todos os derivados do que foi recalcado. Ele continua a existir, a se organizar, a dar origem a derivados e a estabelecer ligações, nas palavras de Freud “ele se prolifera no escuro”.
Através de distorções ou formação de sintomas eles terão acesso ao consciente. A única interferência do recalque com o representante pulsional é com o sistema consciente.
            A técnica psicanalítica exige que o paciente ao associar livremente produza os derivados do recalcado de forma que possam ultrapassar a censura do sistema Pcs/Cs consciente e a partir daí possamos fazer a reconstituição do representante recalcado. O recalque atua de uma forma individual, cada um de seus derivados pode ter sua própria vicissitude.
O recalque é individual em seu funcionamento e extremamente móbil, ou seja, o processo do recalque não é algo que acontece uma única vez.  O recalcado exerce uma pressão contínua em direção ao consciente e o consciente exerce uma contrapressão, logo a manutenção do recalque existe no aparelho psíquico num ininterrupto dispêndio de energia.
            O representante pulsional original pode ser dividido em 02 partes: uma que sofrerá o recalque e a outra é idealizada. Ao representante pulsional entendemos como uma idéia ou grupo de idéias catexizadas com uma quota de afeto que passa por vicissitudes de recalque que podem ser diferentes das vicissitudes da idéia.
            Ao estudarmos um caso de recalque há a necessidade de acompanharmos separadamente o que acontece com a idéia e com a energia pulsional ligada a ela (afeto). A idéia que representa a pulsão geralmente no processo de recalque desaparece do consciente, caso tenha sido consciente ou será afastado da consciência, caso esteja prestes a se tornar consciente.
O fator quantitativo deste representante pulsional possui 03 vicissitudes: ou é inteiramente suprimido, ou aparece com um afeto ou é transformado em ansiedade.
            Para Freud (1915), as vicissitudes da quota de afeto pertencentes ao representante da pulsão são mais importantes que as vicissitudes da idéia. O propósito do recalque nada mais é do que a fuga do desprazer. Se o recalque não conseguir evitar o desprazer e ansiedade podemos dizer que falhou apesar de ter conseguido o seu propósito com a parcela ideacional do representante da pulsão.
            Assim sendo, do ponto de vista econômico, o destino do afeto é mais importante do que o destino da representação (idéia), uma vez que o afeto é o modo quantitativo da pulsão. Através do recalque temos êxito em manter o conteúdo ideativo da pulsão longe do consciente, mas nem sempre o recalque consegue impedir o desprazer resultante da carga de afeto a ele ligado.


2.3. RETORNO DO RECALCADO


            Freud (1915), ao explicar o retorno do recalcado afirma que os efeitos do recalque esta limitado a observação do recalque sobre a parcela ideacional do representante da pulsão descobrindo que o mecanismo do recalque cria uma formação de substitutos e sintomas, mas não os produz. As formações substitutivas e sintomas são indicações de um retorno do recalcado.
            Freud (1915), afirma que o mecanismo do recalque não coincide com o mecanismo ou mecanismos de formação de substitutos, que existem diferentes mecanismos de formação de substitutos e que os mecanismos de recalque tem pelo menos uma coisa em comum: uma retirada da catexia de energia.
            Para Garcia-Roza (2000), Freud entende o retorno do recalcado como um momento independente no processo do recalque. O retorno do recalcado não é simplesmente o aparecimento na consciência dos representantes pulsionais que foram recalcado. É o reaparecimento por caminhos diferentes de forma distorcia e deformada destes representantes pulsionais que escaparam dos mecanismos defensivos do sistema Pcs/Cs.
            O que retorna é de tal forma distorcido que satisfaz aos tanto ao inconsciente quanto ao consciente não produzindo desprazer. São produzidos derivados submetidos a distorções suficientemente a ponto de ultrapassar as defesas impostas pelo Eu as representações recalcadas.


3. CONCLUSÃO

O conceito de recalque existe na obra de Freud desde a época muito anterior a 1915. Com a definição do conceito de recalque Freud fornece a psicanálise um valoroso entendimento acerca dos processos psíquicos que ocorrem no desenvolvimento psicossexual das crianças.
A fidelidade de Freud a sua clínica, fez com ele constantemente revisasse sua obra (teoria) de forma a adequá-la a sua clínica.
Entender o processo de formação do inconsciente, dos conteúdos que são recalcados (a idéia) e o que não é recalcado (o afeto) e a forma como estes conteúdos recalcados retornam ao consciente, permite ao analista junto com seu paciente delinear caminhos que possibilitam ao paciente entender seus sintomas e quem sabe conseguir elaborá-los. Desta forma este conceito é fundamental no tratamento das neuroses.
O exposto acima facilmente nos convence de que se fazem necessárias pesquisas mais abrangentes acerca deste assunto, como por exemplo, o entendimento da dissolução do complexo de Édipo, os mecanismos de defesa do Ego, a formação do supereu antes que possamos entende inteiramente os processos ligados ao recalque e consequentemente a formação de seus sintomas neuróticos.
É extremamente difícil compreender um fenômeno clínico baseado unicamente em apenas um conceito psicanalítica. O objetivo deste texto foi apenas elucidar dentro da teoria psicanalítica o que Freud conceituou como sendo o mecanismo de defesa do neurótico – o recalque.
  

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD. S.  – O Recalque (1915). E.S.B., vol. XIV, Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1980.
__________ -             Pulsão e suas vicissitudes. E.S.B., vol. XIV, Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1980,
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Introdução a Metapsicologia Freudiana. 5ª. Ed. Rio de Janeiro – Ed. Jorge Zahar – 2000.



3 comentários:

  1. Ta de parabéééns me ajudou p prova de teoria psicanalítica.

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  2. http://www.youtube.com/watch?v=8lUAMSbHR7M

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  3. leia amigo e caia pra traz http://escravofielediscreto.blogspot.com.br/2014/02/usa.html

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